Lindinha

Real People: Hands Holding Caucasian Sleeping Newborn Baby Girl
Quando nasceu minha filha Julia, eu estava despreparado para ser pai. Despreparado no pior sentido em que um cantor-compositor pode estar: eu não conhecia canções de ninar.
Na falta de um repertório específico, comecei a entoar mantras indianos para fazer a pequena dormir. Em especial, os Cantos de Yogananda, que são pérolas preciosas. Fui improvisando com aquilo que eu considerava ser o mais adequado para uma alma pura, recém-chegada a este mundo.
A verdade é que não funcionava. Muitas vezes virei noites sacolejando aquela coisinha linda nos meus braços e nada. Ela lá, com os olhinhos arregalados, à espera daquilo que amava e que efetivamente a fazia adormecer: o seio materno.
Meu repertório, na época, não apresentou o resultado esperado.
Ela acalmava, mas não dormia. Por outro lado, acredito que alguma coisa boa deve ter ficado no subconsciente de minha filha. Hoje, olho para ela já crescida, uma entusiasmada praticante de ioga e meditação, e fico imaginando que talvez aqueles mantras sagrados tenham deixado algumas sementes.
É impressionante como, das formas mais inusitadas, a gente vai marcando a vida dos filhos. Eu, por exemplo, sou um sujeito friorento até hoje por causa do sapo-cururu. A culpa é da Dalvinha, minha mãe, que toda noite me colocava pra dormir cantando:
 
Sapo-cururu,
na beira do rio
quando o sapo grita, maninha,
é porque tem frio.
 
Nesse verso final, ela acrescentava um trêmulo na voz e aproveitava para puxar o cobertor até o meu pescoço, para que eu me identificasse ainda mais com o pobre personagem da canção. A técnica funcionava, mas fiquei traumatizado.
Voltando à minha filha. No embalo de muitas noites acordado com Julia no colo, comecei a compor uma valsinha, aproveitando o ritmo em ¾ que minha mão reproduzia naquele bumbum protegido por uma fralda descartável. “Lindinha” surgiu assim, espontânea. É uma canção de ninar carregada de carinho e de pureza. É a manifestação de amor de um artista aprendendo a ser pai.
E não é pra querer me gabar, mas a música funciona bem para os seus objetivos, ou seja, realmente faz dormir.
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Fonte: Brazilian Voice

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